Não se preocupem comigo, eu fico bem

Tuesday, April 12, 2005

Cliché

Eis uma palavra apreendida por mim muito recentemente, a qual ansiava por estrear. Para aqueles que não sabem o que quer dizer (como eu, há uns meses atrás), Cliché significa uma expressão ou ideia repetida e sobre-usada como um lugar comum. Por exemplo: "o dinheiro não compra a felicidade".

A história que vos irei narrar hoje é tão cliché que até irrita. É sobre outros dos meus amigos do Magic, Um cuja fama o precede, já que ele é um dos mais carismáticos e confiantes personagens que temos nesta comunidade. No entanto, toda a sua confiança e carisma que o caracterizam no Magic, não tiveram aplicação na seguinte história.

Foi no Verão quente de 2004 ainda a florescer. Desgastado com as surpresas da vida nos últimos tempos, o meu amigo inscreveu-se num acampamento de verão, como um herói que busca um santuário de refúgio a meio de uma jornada. Eu nunca estive num acampamento de verão, portanto não vos poderei adiantar muitos pormenores sobre esses acampamentos, assim como não há muito que vos possa contar sobre a rapariga que o meu amigo conheceu lá. Não sei como ela é, porque nunca a conheci. Nem sequer sei o seu nome (o qual tenho a certeza que foi mencionado, mas não me recordo). Apenas tomei conhecimento da sua existência através dos relatos do meu amigo, agora palavras velhas de uma recordação que o ensinará a não ser tão parvo para a próxima.

Durante esse tempo, o nosso protagonista e o seu moranguinho tomaram conhecimento da presença um do outro; seria impossível não o fazer, uma vez que partilhavam um espaço em comum, embora nunca tenha havido qualquer avanço da parte dele para a conhecer melhor. A personagem que dizem não temer nenhum desafio e ser das mais carismáticas e confiantes quando está sentado numa mesa a mexer nas suas cartas com um adversário à frente, não conseguiu reunir coragem para conhecer esta rapariga. Ele adiava esse passo sempre para o dia seguinte, pois ela estava ali no acampamento, e quando ele se sentisse preparado iria então conhecê-la.

O Verão é estação mais efémera. Cada dia de Verão sentimos que o fim se aproxima, e de facto acabou por chegar, pondo igualmente fim ao acampamento. O moranguinho desaparecera da sua vida para sempre. Dela, não ficou nenhum contacto, informação, ou forma de lhe chegar. Apenas uma recordação das escassas vezes que estiveram juntos e que trocaram palavras. Foi aqui que ele tomou conhecimento que nunca mais a veria, e das oportunidades que teve para a conhecer, mas em que hesitou avançar. Por mim, o fim seria aqui. Esta é a realidade: se queremos algo, temos de acreditar e fazer por isso. Consoante as suas acções (ou falta delas), o nosso jovem encontraria aqui o fim que merecia.

Mas, por vezes, coisas que só tendem a acontecer nos filmes, também sucedem na realidade. Nos tempos que se seguiram ao acampamento, ele nunca perdeu a esperança de um dia a encontrar, numa infíma possibilidade de se cruzarem na rua, como se poderes superiores os comandassem e propositadamente os fizessem chocar um no outro. Pois sabem que mais? Isso não aconteceu.

O Inverno haveria de chegar, estação oposta ao Verão cheio de brilho onde ele conheceu o moranguinho. Com o frio, congelaram também as esperanças de ele alguma vez a voltar a encontrar. Haveria de acontecer, mas onde ele menos esperaria: sob a neve de Paris. Houve um Grand Prix na cidade luz, a que o nosso protagonista acorreu. Caso o reencontro do Banana (já que estamos a apelidar as personagens de frutos, parece-me que chamar o meu amigo de Banana se enquadra bem no âmbito das suas acções) com o Moranguinho tivesse ocorrido em Portugal, muito provavelmente aconteceria o mesmo que no Verão. Mas fora do país, a situação é distinta, sentimo-nos mais vulneráveis e com maior receptividade a comunicar com pessoas que nos são familiares. Finalmente juntos.

Mais uma vez, estamos num ponto onde poderíamos concluir a nossa história, e onde ela se assemelharia a uma comédia romântica má, onde por incríveis coincidências o destino reúne-os e acaba tudo por ficar bem. Mas isto é a vida real, e a verdade é que o Banana muito pouco fez para reencontrar o Moranguinho.

Já de volta a Portugal, o nosso Banana convida o Moranguinho para sair, apenas para descobrir que ela, partiria em breve para a Suécia. Os seus pais, diplomatas importantes, há já algum tempo que tinham aceite um cargo na Suécia para onde se mudariam em definitivo com a sua filha. Por quanto tempo? Indeterminado, mas nunca inferior a 5 anos. Quando? Nessa mesma semana. E aqui deparamo-nos com o fim desta história, não porque eu assim o entenda mas porque foi aqui mesmo que acabou.

Após esta história, ainda têm presente o que é um cliché? É que ao longo destas linhas, diversas lições que a vida nos ensinam, são clichés. Por motivos literários, e uma vez que fui eu que escrevi, tomei a liberdade de adornar esta bela história com alguns elementos decorativos, tais como a neve em Paris, mas garanto-vos que o enredo está igual ao que me foi contado.